Dar à luz antes da maioridade

Dar à luz antes da maioridade

22 Outubro, 2016 0 Por Staline Satola

A falta de domínio dos métodos contraceptivos, de educação sexual e de locais de entretenimento são apontados por socióloga e sacerdotes como alguns dos factores que contribuem para que muitas adolescentes fiquem gravidas precocemente.

Domingas José, 19 anos, é uma das centenas de adolescentes residentes no sector do Toco, comuna do Hoque, província da Huila, que por falta de orientação sexual fez um filho antes de atingir a maioridade.

Aos 14 anos de idade ficou concebida pela primeira vez e deu à luz uma menina que já conta quatro anos de idade.

No momento em que prestava tais declarações a OPAÍS, estava grávida do seu terceiro filho.

“Eu e o meu esposo contamos também com o apoio dos nossos pais para sustentar os nossos filhos”, disse.

Contou que a situação complica-se apenas naquelas circunstâncias em que as crianças ficam doentes por não terem uma unidade hospitalar próxima a funcionar 24/24.

Por este motivo, está entre os 22 mil habitantes do sector, segundo o Censo 2014, que diariamente suplicam a Deus que conceda a graça de o Centro Materno Infantil Nossa Senhora da Muxima abrir as portas ao público o mais breve possível.

Enquanto isso não acontece, conscientes dos riscos de vida que correm se não forem medicadas nesta fase, as gestantes fazem as consultas pré-natal no único Posto de Saúde do Toco, que funciona de Segunda a Sexta-feira, das 08h30 às 15h00, rezando para que as dores de parto não surjam à noite.

Domingas José desabafou que ficava apavorada só de pensar que teria que percorrer, sentido as contrações, os cerca de 40 quilómetros de distância que separa a sede do Toco da Maternidade Irene Neto, situada na cidade do Lubango.

Sacrifício que teve que fazer há quatro anos para trazer ao mundo a sua primogénita sem pôr em risco a vida de ambas. Esclareceu que o seu temor deve- se, essencialmente ao facto de a única ambulância, afecta à Paróquia de Nossa Senhora da Muxima do Toco, que estava disponível para transportar os doentes em estado grave da comunidade à maternidade estar avariada.

“Gostaria que esse centro materno infantil do Toco fosse já aberto ao público para deixarmos de percorrer longas distâncias a fim de beneficiamos de assistência médica”, frisou.

Já a jovem Ana Benguela, 22 anos, contou que ficou grávida pela primeira vez aos 16 anos de idade e deu à luz em casa, com o auxílio da sua mãe que é parteira tradicional. Na altura em que prestou tais declarações, encontrava-se no oitavo mês de gestação do seu terceiro filho.

O segundo, que também veio ao mundo com o auxílio da sua progenitora morreu, vítima de doença. Contou que foi a sua mãe quem a ajudou a dar à luz ao seu primogénito, há cinco anos.

Ana Ingua Francisco Tchimula, 25 anos, por sua vez, teve o seu primeiro filho aos 17 anos de idade e neste momento já tem quatro. O segundo tem cinco anos, o terceiro três anos e o quarto tem um ano.

Ela e o seu esposo abandonaram a aldeia de Serra Baixa e se instalaram na sede do sector com o propósito de garantirem um futuro melhor aos filhos. Não obstante as dificuldades, não descartou a possibilidade de vir a ter mais filhos.

“Efico e modernismo propiciam gravidez precoce
A socióloga Aida Neusa Gomes Nelson esclareceu que as jovens que fazem o efico, o ritual tradicional que simboliza a passagem da puberdade para a idade adulta, antes dos 18 anos (entre os 12 e os 14 anos) acabam por ficar concebidas muito cedo.

“Depois do efico elas recebem informações que consideram como uma espécie de liberdade para a vida sexual activa. Então, a partir desse momento, podem contrair matrimónio e procriar por ser permitido em termos tradicionais”, explicou.

A docente do Instituto Superior Politécnico Independente da Huila advertiu que tradicionalmente havia uma protecção e aceitação no seio das famílias para esse tipo de situação, o que não se regista hoje.

Não obstante isso, ressaltou que a gravidez precoce é transversal a todas as classes sociais, embora se registe maior índice no seio das famílias economicamente mais desfavorecidas.

 

 

Fonte: OPAÍS

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