Iraque: Permanece no caos e muitos sentem saudades de Saddam

Iraque: Permanece no caos e muitos sentem saudades de Saddam

30 Dezembro, 2016 0 Por Staline Satola

Dez anos após a execução de Saddam Hussein, o Iraque permanece afundado no caos, com a irrupção do grupo extremista Estado Islâmico, e os iraquianos dividem-se sobre a memória do antigo Presidente.

Saddam Hussein foi executado em 30 de dezembro de 2006 na capital iraquiana, Bagdad, depois de ter sido condenado por um tribunal pela morte e tortura de 148 opositores xiitas em 1982, e também pelo “genocídio” do povo curdo e outros “crimes contra a humanidade” e “crimes de guerra”.

As duas décadas em que o governante sunita liderou o Iraque ficaram marcadas por uma forte repressão e três guerras, que deixaram feridas que ainda se mantêm abertas na sociedade iraquiana.

Mas, a instabilidade política que se sucedeu e o caos causado pela aparição do Estado Islâmico, que conquistou amplos territórios no norte do Iraque em 2014, alimentaram algum sentimento de saudade do Governo de Saddam, entre a população.

“A situação tão difícil no Iraque por estes dias e a má administração dos governos desde 2013 fazem com que o povo sinta falta da época de Saddam e que a considerem como uma época de riqueza”, comentou à agência de notícias espanhola Efe, Nayi Ibrahim, antigo membro do partido Al Baas, que era liderado por Saddam Hussein, e que foi entretanto dissolvido.

A nostalgia pela época do antigo ditador, considera, “não é porque Saddam fosse um anjo, mas porque os que governaram depois da sua época causaram caos, deterioração da segurança, pobreza, desemprego e aumento do desemprego”.

Nas ruas, a memória de Saddam Hussein provoca rejeição, mas muitos, devido à difícil situação do país, atenuam a recordação da repressão que o antigo Presidente executou entre 1979 e 2003.

Saddam reagia aos críticos com prisão, tortura e morte, iniciou uma desastrosa guerra com o Irão (1980-1988) e invadiu o Kuwait em 1990, levando a anos de sanções internacionais.

Mas o seu governo ofereceu estabilidade, educação de qualidade, cuidados de saúde, emprego e serviços para a maioria da população — benefícios que decaíram muito nos anos que se seguiram à queda do regime de Saddam.

A invasão do Iraque pela coligação internacional liderada pelos Estados Unidos em 2003 desencadeou anos de violência sectária, incluindo bombardeamentos frequentes, raptos e execuções, que atingiram o auge entre 2006 e 2008.

Esta violência foi mitigada pela aliança entre chefes tribais sunitas e as tropas norte-americanas, bem como pelo aumento das forças militares dos Estados Unidos no terreno.

A violência regressou nos anos seguintes à retirada das forças norte-americanas, em 2011, causada principalmente pela revolta dos iraquianos sunitas contra o Governo, então chefiado por Nuri al-Maliki, que respondeu aos protestos com mão pesada.

Em 2014, uma ofensiva do Estado Islâmico permitiu aos ‘jihadistas’ conquistar o controlo de partes do território iraquiano a norte e oeste de Bagdade. As forças iraquianas conseguiram fazer recuar o grupo extremista, mas, no processo, cidades e vilas sunitas foram destruídas, o que cria condições para mais descontentamento e conflitos no futuro.

A nova classe política fracassou na tentativa de agradar a muitos iraquianos, além de ser incapaz de garantir a segurança do país.

A corrupção disparou, serviços básicos como luz e água falham, e o Governo está destruído pelo sectarismo e por lutas políticas internas.

Depois de meses de protestos em Bagdade e em outras regiões, o executivo prometeu fazer reformas, mas até agora pouco avançou.

Ilaf, um jovem estudante ouvido pela agência France-Presse, critica tanto a anterior como a atual liderança do Iraque: “Saddam Hussein era uma serpente enorme. Agora, somos chefiados por uma multidão de pequenas serpentes”.