Notícias ao Minuto: Trump? É "resultado da raiva, racismo e preconceito"

Notícias ao Minuto: Trump? É "resultado da raiva, racismo e preconceito"

18 Dezembro, 2016 0 Por Staline Satola

O escritor Carlos Ruiz Zafón teceu alguns comentários sobre os resultados das eleições norte-americanas em conversa com o Notícias ao Minuto. O espanhol vive em Los Angeles desde 1993 e sublinha que se trata de um fenómeno que está a acontecer em todo o mundo.

Carlos Ruiz Zafón esteve em Portugal para o lançamento do seu livro ‘O Labirinto dos Espíritos’, a entrega final da série Cemitérios dos Livros Esquecidos, que se iniciou em 2001 com ‘A Sombra do Vento’.

A viver há mais de duas décadas nos Estados Unidos, o escritor espanhol comentou os resultados das eleições presidenciais norte-americanas e o período de incrível tensão que se vive em todo o mundo.

Vive nos Estados Unidos desde 1993. Já passou por mandatos de dois Bush, pai e filho, Clinton e Obama. E agora?

E agora não sabemos. [risos]

Como vê os resultados das eleições?

Vejo como o resultado de um fenómeno que está a acontecer em todo o mundo e que no Ocidente chegou ao fim. É uma consequência da raiva, da indignação, da frustração que uma parte muito grande da população sente. Sente-se traída, sente-se enganada e os diferentes setores da população reagem de forma diferente. Os mais jovens sentem que lhes foi roubado o futuro. (…) Isto, nos vários países, entra em combinação com outros fatores latentes, como o racismo, como os preconceitos, coisas que sempre estiverem ali, como fantasmas a flutuar. Nos Estados Unidos, esse ressentimento, essa frustração serviram para aglutinar outros fatores que sempre estiverem presentes de forma marginal, fora do que é mainstream.

Escondidos por baixo de uma ilusão de modernidade.

Ku Klux Kan, caramba! Era uma coisa que tinha de ser escondida.

Existia mas não era bonito falar sobre isso.

Agora tudo isto entrou no mainstream misturado num estranho cocktail, que vem com esta massa de ressentimento, de pessoas frustradas.

aHá também a peculiaridade da lei eleitoral norte-americana e muitos outros fatores. Isso deu este resultado, que não é tão estranho quando comprado com o que vemos noutros países: Brexit, o crescimento da extrema-direita no norte da Europa, formações populistas de esquerda no sul da Europa que têm uma retórica que lembra muito os anos 30.

Uma série de fatores que são consequência da crise financeira, da destruição da classe média. Acho que o que está a acontecer é que se está a romper o contrato social que mantém o equilíbrio. O sistema que tínhamos era um sistema que permitia o abuso mas, como todos os sistemas, só podia aguentar o abuso e a corrupção até certo ponto. E acho que se abusou tanto, esgotou-se tanto, que se partiu a galinha dos ovos de ouro. E agora é muito difícil recompor.

As pessoas quando estão zangadas não tomam boas decisões. E depois aparecem os Flautistas de Hamelin, demagogos, personagens que veem que há um capital político na sociedade a que se pode recorrer para alcançar o poder.

Acho que se abusou tanto do Estado Social que se partiu a galinha dos ovos de ouro

Capitalizar o ódio e o medo?

Capitalizar o ódio e o medo. Há populações no norte da Europa que estão a envelhecer e que têm medo da imigração.

No sul da Europa há grandes faixas da juventude que veem que o seu futuro não é aquele que pensavam que iam ter e então pensam que foi o sistema que lhes fez isso, os bancos, os poderosos e os ricos.

É o mesmo sentimento e a mesma energia que se vai adaptando em diferentes modos. E é isso que está a acontecer nos Estados Unidos também. Lamentavelmente, o que acontece nos Estados Unidos tem impacto em todo o mundo.

E neste caso é muito estranho, a própria campanha foi surreal. O próprio candidato é um enigma. Quem é esta pessoa, o que é pensa verdadeiramente, o que é que quer fazer? Não sabemos. Há uma grande incerteza.