Anselmo Ralph, “Sei que este sucesso vai acabar. Só não sei quando”

Anselmo Ralph, “Sei que este sucesso vai acabar. Só não sei quando”

8 Março, 2017 0 Por Staline Satola

As origens estão em Angola mas os portugueses já adotaram Anselmo Ralph como seu. No final de 2016, brincou com a diminuição física ao titular de “Amor é Cego” o álbum que, em 2017, será reeditado com participações de convidados. Sonantes, imagina-se.

A agenda de Anselmo Ralph é isto. Solicitações constantes, contacto com o público e a comunicação social. Espetáculos, promoção, filmagens, gravações. Aeroportos, hotéis e planos ambiciosos.

Quanto tempo sobra para Anselmo Ralph ser um cidadão comum, pai de família e cinéfilo? Dúvidas e questões contornadas pela oportunidade única de ser a voz do coração que muitas cabeças teimaram. Até as canções derrotarem a última barreira: a do ritmo que nem é kizomba.

Ainda consegue ser uma pessoa normal ou já não pode sair à rua?

Estou numa fase em que faço questão de sair à rua. Mas depende do sítio onde vou estar. Centros comerciais evito. Já não vou há bastante tempo mas às segundas ou terças-feiras sou capaz de sair de casa, Tiro uma foto aqui, uma foto ali… O que me pedem são fotos.

Quando se leva uma vida tão agitada, o sossego é necessário?

Sim, procuro esse sossego em casa. Não sou muito de sair. Do que sinto falta é de ir ao cinema. Sempre fui viciado. O meu cinema agora é mais em casa do que em sala. Há dias em que não estou bem disposto e prefiro não sair porque quando saio, vou ter que lidar com o público. Não posso dizer “hoje não dá”. Quando acho que não é o meu dia, prefiro ficar em casa,

Os fãs são atrevidos?

Quando os fãs vêm ter comigo, por mais simpatia que possa demonstrar, há logo um risco no chão. Dali não é possível passar. Às vezes prefiro ignorar alguns toques, brincar com a situação ou ser simpático. Mas às vezes recebemos propostas estranhas (risos).

O que o pode deixar indisposto? A carreira?

Muitas vezes sinto-me tentado por esse lado competitivo mas não me faz bem. Quando começo a sentir-me dessa forma, tento despir-me desse pensamento. Não é saudável. Começas a fazer as coisas para ir mais longe do que outro artista. Quando se trabalha dessa forma, não funciona. Pelo menos para mim. Prefiro dar o meu melhor e não achar que o meu melhor tem que ser melhor que os outros.

Seguir um ritmo pessoal?

Exato. Acima de tudo o meu ritmo. Às vezes dizem-me: “Aquele artista está a fazer aquilo e tu tens de fazer também”. E eu digo: “Calma. Se está a fazer, bom para ele. Mas eu não tenho que fazer também”. Temos que aceitar que a vida profissional é um sobe e desce. Não se está sempre em cima. Uma das virtudes numa luta é saber levar porrada (gargalhada).

Como é que observa o sucesso de outras vozes da música angolana como Nelson_Freitas, Matias Damásio ou C4 Pedro? Há rivalidade?

Às vezes, por sermos bem sucedidos no mesmo território e na mesma época, há “bocas”. Mas não há rivalidade. Dou-me muito bem com o Nelson Freitas e o Matias Damásio. O C4 não me é próximo mas quando nos cruzamos, cumprimentamo-nos. Existe um sentimento de competitividade que, com uma boa medida, é saudável. Obriga-me a dar o melhor e a não correr na pista dos outros.

Na sua pista, qual é a fasquia mais alta?

É continuar a internacionalização._Tenho projetos para o Brasil – vou lá em Abril para gravar um_DVD com participações – e no dia 7 vou para Madrid trabalhar nos singles em espanhol. Quero ganhar outros mercados e manter os que já estão conquistados.

E Portugal, que importância tem nesta altura?

Estou a fazer uma digressão em Angola e estive um mês e meio sem vir cá, o período mais longo desde que comecei a vir a Portugal regularmente. Quando cheguei, pensei: “Já estava com saudades”. Já não consigo ficar muito tempo sem ir a Angola ou vir a Portugal. É 50/50. Tenho uma vida mais agitada em Angola por causa da minha produtora e quando venho a Portugal é mais sossegada. O que Portugal me dá, Angola não dá e vice-versa. É um equilíbrio. Agora, o fator emocional de Angola é insubstituível. A cultura, a comida… Às vezes estou aqui e tenho saudades de um funge [prato tradicional angolano] (gargalhada). Profissionalmente, talvez Portugal seja um pouco mais importante. Do ponto de vista emocional, Angola pesa um pouco mais. E para os meus negócios também.

 

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